19 de Junho de 2019

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Segunda-feira, 06 de Maio de 2019, 09h:46 - A | A

“Mato Grosso avança em uma direção e o efetivo da Polícia vai na contramão”

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José Ribamar Trindade Especial para o Centro Oeste Popular   Christian Alessandro Cabral, 43 anos, pai de três filhos, bacharel em Direito, natural de Juiz de Fora, nas Minas Gerais (MG). Ele é delegado Polícia Civil de Mato Grosso há 17 anos. É considerado polêmico, mas extremamente correto, honesto e de bom caráter. Fluminense no Rio de Janeiro, titular da Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito (Deletran). Em entrevista ao Jornal Centro-Oeste Popular ele fala sobre sua carreira, sobre os prós e contra da Segurança Pública, avanços, conquistas entre outros assuntos. Confira.  

CO Popular – O senhor é reconhecidamente um delegado polêmico. O que isso representa para sua carreira, até agora considerada, pela própria comunidade como brilhante?  

Christian Alessandro Cabral – Sou um grande admirador do ativista político Martin Luther King. Procuro aplicar em minha vida profissional várias lições de comportamento deixadas por ele, em especial, aquela em que ele disse: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que me preocupa é o silêncio dos bons”. Falo e faço o que julgo ser o certo, ainda que muitas vezes não o seja ou que eu seja o único a pensar dessa forma , daí a razão de ser chamado de polêmico.    

CO Popular – Como delegado na Delegacia de Repressão a Roubos e Furtos de Veículos (Derfv), o senhor foi destaque. Alavancou prisões de centenas de bandidos, mas também fechou dezenas oficinas de desmanche de veículos. Foi o seu melhor trabalho na PC?  

Christian Cabral – Os primeiros dez anos de minha carreira não foram nada fáceis. Naquela época muitos dos delegados antigos na carreira não queriam trabalhar com um delegado como eu, difícil de ser cabrestado. Eu rodava de delegacia mais que bolinha de roleta de cassino, por isso, para ter uma sobrevida maior nas unidades por onde eu passava, costuma imprimir um ritmo de trabalho duro.

Eu passei pela DERFVA duas vezes, na primeira não durei mais que seis meses na unidade. Quando tive a oportunidade de voltar, alguns anos depois, retornei ligado nos 220 volts, instaurávamos centenas de inquéritos por mês e paralelamente saíamos as ruas com os investigadores, investigando auto peças e oficinas que recepcionavam peças de veículos furtados e roubados. Quem pode dizer se foi meu melhor trabalho é a sociedade, mas que foi o período mais intenso da minha carreira.    

CO Popular - Hoje na Deletran, o senhor é temido pelos cachaceiros que bebem para dirigir?  

Christian Cabral – Durante minha trajetória na DELETRAN aconteceu um fato que foi um divisor de águas. Resolvemos implantar através do GGI da SESP o projeto das Operações Lei Seca Integradas. Na primeira operação realizada dentro do projeto, um delegado de polícia foi abordado e apresentava sinais de embriaguez.

Esse delegado além de trabalhar na Corregedoria da Polícia, era um grande amigo meu. Sem pestanejar, dei a ele o mesmo tratamento dado aos demais condutores flagrados embriagados na operação. Aquela decisão não apenas fortaleceu o projeto, mas me deu fama de intransigente. Hoje as pessoas sabem que se caírem em uma blitz, não haverá a mínima condescendência.   

CO Popular – Por que o teste do bafômetro não é obrigatório? Ele não seria uma peça importante nas investigações de um acidente, principalmente com vítima, ou vítimas fatais?  

Christian Cabral – Apesar de desejarmos ter acesso a todos os meios de prova possíveis para sustentar uma acusação, sabemos que é imprescindível em um estado democrático de direito, a existência de algumas garantias legais ao investigado. O direito de não ser obrigado a produzir prova contra si próprio é um dos pilares desse Estado Democrático de Direito.

É inegável que a não obrigatoriedade da realização do teste do etilômetro causa sérios embaraços à investigação criminal, mas é um preço justo a ser pago. Além disso, em dezembro de 2 012, o Código de Trânsito recebeu uma importante mudança, permitindo que a prova da embriaguez pudesse ser realizada por outros meios de prova, que não dependessem exclusivamente da vontade do suspeito, minimizando os efeitos da recusa a realização do teste do etilômetro.  

CO POPULAR – Há muitos o governo federal estadual e municipal gastam bilhões com propagandas. A própria sociedade também faz alerta pelas redes sociais. O senhor acredita que o motorista que bebe, digere, provoca acidentes, principalmente fatais não tem a intenção de matar?    

Christian Cabral- O fato de alguém beber e assumir a direção de seu veículo não significa que está assumindo o risco de matar ou mesmo lesionar terceiros. Todavia, a embriaguez aliada a outros comportamentos do agente, serve para revelar que embora este não desejasse diretamente causar o evento lesivo, assumiu conscientemente o risco de fazê-lo e, por esta razão, em matéria penal, fica sujeito a responder pelas penas de quem o quis fazer diretamente.  

CO Popular – Por que o motorista bêbado que mata pessoas, na maioria dos casos não são autuados em flagrante em crime de homicídio doloso?  

Christian Cabral – A conduta de estar embriagado, isoladamente, é imprestável para determinar que o motorista tivesse a intenção ou assumisse o risco de matar terceiro no trânsito.  

CO Popular – As leis de trânsito são frágeis, com muitas brechas e as penas condenatórias são pequenas, principalmente para assassinos bêbados?  

Christian Alessandro Cabral – Nossas leis são boas, são referências em muitos outros países. O nosso problema não está na construção das leis, mas na aplicação delas. Elas são bonitas no papel, mas carecem de efetividade. Hoje um motorista flagrado dirigindo embriagado, em tese, ficaria sujeito a uma pena de detenção de 6 meses a 3 anos de detenção e a suspenção do direito de dirigir por 12 meses.

Nesses quatro anos, que estou na DELETRAN não vi nenhum caso de motorista que tenha cumprido essas penas. Isso por que paralelamente foram publicados outros atos normativos que minimizam ou mesmo neutralizam a aplicação dessas sanções. A mesma coisa acontece em relação aos condenados na Lava Jato. No papel, as penas para as corrupções são bonitas, na prática as penas efetivamente cumpridas são risíveis.  

CO Popular – Como o senhor vê a Polícia Civil hoje em Mato Grosso?  

Christian Cabral – Ao longo desses 17 anos em que estou na Polícia Civil de Mato Grosso percebi a intensidade com que ela evoluiu. Em pouco mais que duas décadas, saímos de uma polícia onde seus integrantes eram de livre nomeação e exoneração pelo governo, para uma polícia formada por servidores concursados de nível superior. Deixamos de usar carros apreendidos como viaturas e temos uma frota de viaturas formada por veículos zero km. Abandonamos os imóveis insalubres e inapropriados utilizados como sedes de delegacias e mudamos para prédios novos e funcionais. Infelizmente, a única coisa que não tem evoluído e a falta de efetivo humano. Mato Grosso avança em uma direção e o efetivo da Polícia vai na contramão.  

CO Popular – Em sua opinião, quem dirige veículos melhor, o homem ou a mulher?       

Christian Cabral – Melhor motorista é aquele que dirige com mais cautela e prudência, esses comportamentos não sofrem influência dos sexos.  

CO Popular – Os acidentes de trânsito acontecem simplesmente, ou são provocados?  

Cabral – Acidentes de trânsito sempre irão acontecer ainda mais em cidades como a nossa Capital onde a frota tem crescido em média 10% ao ano e as vias ficam estagnadas no tempo por várias décadas e sofrem com deteriorização em razão da precariedade da política de conservação. O papel dos motoristas é respeitar as normas de circulação viária para não apenas minimizar a frequência, mas também a intensidade desses acidentes.  

CO Popular – O senhor já foi ameaçado de morte por combater os bêbados criminosos ao volante e os bandidos armados? Quem é mais perigoso?  

Christian Cabral – A atividade policial é uma atividade de risco. Conviver com pessoas de má índole e violentas faz parte desse cotidiano. Lidar com facções criminosas é muito mais perigoso, mas não existe nenhuma garantia que em uma blitz, por exemplo, um bêbado jogue seu veículo para cima de um policial para foragir do bloqueio, atropelando o,  ou resista com violência física a uma abordagem de rotina.  

CO Popular – O senhor tem um plano ou projeto para diminuir o alto índice de violência no trânsito, que em números de mortes é um dos que mais mata no mundo?  

Christian Cabral – Acredito que os altos índices de violência no nosso trânsito estejam diretamente ligados a sensação de impunidade que impera em nosso país. As ações de fiscalização de trânsito, as suspensões e cassações de habilitações e as condenações por crimes de trânsito ainda são muito tímidas, incapazes de levar a uma mudança de comportamento em massa. 

CO Popular – O senhor se filiou ao PROS, pretende ser candidato nas próximas eleições?  

Christian Cabral – A filiação ao PROS veio da constatação de que nas últimas eleições eu e grande parte dos eleitores fomos obrigados a votar no menos ruim, porque em alguns casos, não haviam bons nomes a serem escolhidos. Temos que tornar a indicação dos candidatos pelos partidos mais qualificada, fazendo com que somente os bons nomes sejam apresentados para a escolha final do eleitor. Isso só será possível com a maior participação da população nos partidos e agremiações políticas. Meu propósito inicial é esse, ajudar o PROS a selecionar as melhores pessoas para serem submetidas a escolha do povo, através do processe eleitoral. Ainda tenho muito que fazer na minha carreira policial. No futuro, quem sabe.

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