SEM ATENDIMENTO, PACIENTES MORREM NO PRONTO-SOCORRO
04.06.2014

Pronto-Socorro de Várzea Grande: falta de insumos, medicamentos e profissionais prejudica atendimento

A falta de insumos, medicamentos e de profissionais têm prejudicado o atendimento mínimo esperado por quem precisa de ajuda no Pronto-Socorro da cidade de Várzea Grande, na área metropolitana de Cuiabá.

Familiares de pacientes que se encontram internados ou que faleceram no hospital reclamam que a situação, que já era caótica, piorou nos últimos dias, principalmente após a greve deflagrada pelos enfermeiros da unidade.

Pelo menos três pessoas faleceram no Pronto-Socorro de Várzea Grande, na passagem de terça-feira (3) para quarta-feira (4).

Uma delas foi a moradora de Poconé (100 km ao Sul da Capital, Maria José da Costa Silva, de 71 anos, que chegou andando ao hospital há 13 dias, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Segundo os familiares, de Maria José, o quadro clínico piorou com o passar dos dias, agravado tanto pela demora no atendimento e na realização de exames – por ausência de profissionais –, quanto pela falta de medicamentos e pela ausência de vagas na Unidade de Terapia Intensiva.

"O que eu vi nesse Pronto-Socorro, durante esses dias em que estive lá, é lamentável. Aquilo é uma calamidade, uma alternativa para realmente quem não tem outra opção"

A neta da paciente, Hingrid Kelly Silva Oliveira, 27, afirmou ao MidiaNews que assistiu ao declínio na saúde da avó de “mãos atadas”.

“Nunca tinha médico disponível para atendê-la e, desde o dia em que chegou com o AVC, a única coisa que davam para ela era dipirona. Deram tanto que ela nem mais se mantinha acordada. Ela chegou falando, se alimentando e, com o passar dos dias, perdeu o movimento das pernas, parou de comer e acabou pegando uma infecção hospitalar”, disse.

Em todos os dias que passou acompanhando a avó no Pronto-Socorro, Kelly disse ter visto muitas pessoas sofrendo por falta de medicamentos e insumos ou pela ausência de enfermeiros e médicos.

“O que eu vi nesse Pronto-Socorro durante esses dias em que estive lá é lamentável. Aquilo é uma calamidade, uma alternativa para realmente quem não tem outra opção. E o pior é que se você vai reclamar, a única coisa que ouve é que precisa ter paciência, que não tinha remédio ou médico no momento e que precisava esperar”, relatou.

Conforme a neta da dona Maria José, aparelhos básicos, como medidor de pressão, não era encontrado no hospital. Por outro lado, pacientes chegam a esperar dias pela realização de um raio-x ou de uma tomografia por falta de pessoas capacitadas para a execução do exame.

“A minha avó precisava ter a pressão medida regularmente e eles não tinham o aparelho. A gente comprou o aparelho necessário, mas aí não tinha quem o usasse. Fiquei pedindo para me ensinarem pelo menos o básico, para conseguir medir a pressão dela”, afirmou.

Segundo Kelly, a situação da avó chegou a um ponto em que ela precisou ser entubada e não havia leito disponível para sua transferência para a UTI.

"Até ontem, havia pelo menos mais seis ou sete pacientes entubados no box de emergência, sem vaga na UTI. É muita falta de respeito com a população"

Na tentativa de garantir um atendimento melhor, os familiares tentaram transferi-la para outro hospital e tentaram ajuda, inclusive, da Defensoria Pública, mas sem sucesso.

“Cada hora que tentávamos tirá-la de lá, apontavam a necessidade de um novo documento, uma nova burocracia. Nunca achávamos um médico para autorizar a saída dela, porque ele só passava de madrugada e falava que ia pedir para mudar a medicação”, disse.

Kellu afirmou, ainda, que viu vários pacientes no box de emergência que precisam de UTI, mas, como sua avó, não conseguiam vaga e também não tinha sua remoção autorizada.

“Até ontem haviam pelo menos mais seis ou sete pacientes entubados no box de emergência, sem vaga na UTI. É muita falta de respeito com a população”, reclamou.

Outro lado


Ao MidiaNews, o secretário de Saúde de Várzea Grande, Daoud Abdallah, reconheceu os problemas enfrentados pelo Pronto-Socorro do Município e afirmou que a situação teria se agravado com a greve dos enfermeiros, considerada ilegal pela administração.

“Desde a última sexta-feira (30) que os enfermeiros começaram a faltar. Em momento algum eu fui notificado da greve. Eles haviam marcado uma manifestação para a segunda-feira de manhã. De protesto, eles decidiram pular para a greve”, afirmou.

Lislaine dos Anjos/MidiaNews

Secretário de Saúde de Várzea Grande, Daoud Abdallah: abertura de sindicância para apurar situação do hospital

O secretário afirmou que os enfermeiros voltaram ao trabalho nesta quarta-feira (4) e que ameaçam parar novamente no dia 10, caso o salário não seja pago pela Prefeitura de Várzea Grande.

“Agora nós temos um indicativo de greve”, disse.

Segundo Abdallah, foi aberta uma sindicância para apurar as mortes que foram registradas desde o início da falta dos enfermeiros no hospital, a fim de identificar se houve negligência de alguma forma por parte da unidade e punir os responsáveis.

“Pedi um levantamento da falta de servidores, medicamentos, insumos e de tudo o que ocorreu nesse período. Ainda não tive a confirmação de quantas mortes ocorreram e, por isso, não posso me posicionar sobre esse ponto”, disse.

"O número de leitos, realmente, é baixo. Temos apenas 10 UTIs para atender toda a Várzea Grande"

Alegando ter assumido o posto há 40 dias, o secretário disse que ainda está tomando providências para “apagar incêndios” na unidade, e que ainda não houve tempo para planejar uma nova estruturação do local.

“Realmente, há alguns medicamentos e insumos em falta e estamos fazendo contratações emergenciais para suprir esse déficit”, disse.

Quanto à falta de leitos, Abdallah afirmou se tratar de um problema estadual, uma vez que se trata de atendimento de alta complexidade, regulado, por sua vez, pelo Governo do Estado.

“Mas o número de leitos, realmente, é baixo. Temos apenas 10 UTIs para atender toda a Várzea Grande”, afirmou.

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