PRADO FALA EM "TROCAR TIRO COM VAGABUNDO" E ATACA IMPRENSA
06.06.2014

Prado fala em "trocar tiro com vagabundo" e ataca imprensa

Em uma reunião tensa, o Conselho Superior do Ministério Público Estadual (MPE) discutiu, na segunda-feira (2), a crise de imagem que se abateu sobre o MPE, após o episódio da lista com os nomes de 47 promotores e procuradores de Justiça, encontrada pela Polícia Federal durante busca e apreensão na casa do ex-secretário de Estado Eder Moraes, preso na Papuda, em Brasília.

Além da lista, que foi inserida em denúncia pela procuradora da República Vanessa Scarmagnani, o conselho também discutiu a acusação contra o promotor Marcos Regenold, do Gaeco, de ter protegido Eder Moraes.

"Nós sabemos que existe um interesse muito grande da mídia de tirar (do foco) esses políticos pesados. Nós sabemos que eles [da imprensa] não vão falar mal do governador, não vão falar mal do José Geraldo Riva... Talvez também não falem mal do Eder Moraes"


O áudio da reunião (ouça a íntegra abaixo), com duração de 1h41, foi vazado nesta quinta-feira (5), com exclusividade, pelo jornal Diário de Cuiabá

Na reunião, o procurador-geral de Justiça, Paulo Prado, também investigado pela Operação Ararath, volta a se defender das suspeitas e ataques ao MPE, e a pedir apoio dos colegas.

Nervoso, sem citar nomes, Prado voltou a criticar o Ministério Público Federal, pela inclusão da lista na denúncia enviada à Justiça Federal contra Eder Moraes, Vivaldo Lopes e outros suspeitos. A lista, conforme relatou o MidiaNews, se refere a créditos salariais, vendidos à Rede Cemat.

O chefe do Ministério Público Estadual também atacou a imprensa, a quem acusou de proteger "políticos pesados", como o governador Silval Barbosa (PMDB) e o deputado estadual José Riva (PSD). Prado disse que o Ministério Público Estadual não tem verba para "subornar" os veículos de comunicação. 

Segundo ele, a imprensa está atacando o Ministério Público Estadual e protegendo o governador Silval, Riva e o ex-secretário de Estado Eder Moraes.

“Nós sabemos que existe um interesse muito grande da mídia de tirar (do foco) esses políticos pesados, que nós estamos processando há muitos anos. Aqui ninguém é criança, e nem marinheiro de primeira viagem. Nós sabemos que eles [da imprensa] não vão falar mal do governador, não vão falar mal do José Geraldo Riva... Talvez também não falem mal do Eder Moraes", disse.

E emendou: "Como nós não temos verba, e não subornamos ninguém para falar bem da gente, nós temos que agir é na legalidade, no trabalho árduo e corajoso”, completou. 

"Essa canalhada, esses patifes, vagabundos, desqualificados”

Paulo Prado, durante coletiva à imprensa

Em outro trecho da reunião, Prado também se exaltou. 

Foi no momento em que o procurador de Justiça João Batista de Almeida, também citado na planilha, usava da palavra. 

Almeida disse que é preciso repensar a atuação do Gaeco "com urgência", bem como separar procuradores e promotores que possam ser colocados em suspeição. 

Ele se referia ao fato do promotor de Justiça Marcos Regenold, do Gaeco, ser acusado pela Polícia Federal de "proteger" Eder Moraes. Regenold teve seu celular interceptado pela PF, em diálogos com Eder, inclusive na hora em que agentes da PF faziam busca e apreensão em sua redisência.

“Precisamos repensar o Gaeco. Essa questão da organização, da sistematização, de ir em frente. Temos que ver a relação com a imprensa, se é valido estarmos nos expondo a qualquer coisa”, disse. 

"Essa canalhada não vai sujar o nome dessa instituição. Esses patifes, vagabundos, desqualificados. Não vou aceitar que vagabundo toque meu nome na imprensa. Nem que eu tenha que trocar tiro com vagabundo. Nem que tenha que sair na bala"


“O relatório das procuradoras da Republica está aí, nos colocando como integrantes de uma organização criminosa. A não ser que eu esteja com Alzheimer... O que nós queremos, Paulo, é que a coisa se esclareça. Nesse balaio de gato, nem todos são gatos”, disse. 

Em resposta, o procurador-geral, elevou o tom da voz. E atacou, sem citar nomes, o Ministério Público Federal, que teria exposto o MPE. 

“Ninguém quer mais isso que eu. Eu enfrentei os jornalistas. Dei a coletiva. Ninguém. Ninguém deseja mais isso do que eu. Não aceito, não vou aceitar. E vocês estão vendo e agradeço o apoio, porque essa canalhada não vai sujar o nome dessa instituição. Esses patifes, vagabundos, desqualificados”, disse.

“Eu tenho 25 anos de instituição, dei meu sangue de manhã, a tarde e a noite. Faço tudo por isso aqui. E não vou aceitar que vagabundo toque meu nome na imprensa. E eu tenho coragem, mais do que qualquer um aqui, e quero apoio, porque aqui é lugar de homens. Nem que eu tenha que trocar tiro com vagabundo. Nem que tenha que sair na bala. Mas eu vou mostrar que aqui não tem vagabundo, não”.

"Malfadada lista"

Almeida concorda com Prado e ressalta que as denúncias da Ararath trouxeram o descrédito à instituição. 

“Entendendo esse desabafo, porque cada um de nós, doutor Paulo, temos maneiras diferentes de reagir, mas todos nós fomos maculados, independente dessa malfadada lista, foi o Ministério Público que está ferido, desacreditado junto a sociedade. Não vamos dourar a pílula. Estamos desacreditados”, disse. 

O procurador-geral responde que “ninguém está apanhando” mais que ele. 

Após a interferência de outros procuradores, Prado se desculpa pela "deselegância". 

“Ninguém foi mais atacado e debochado do que eu. Minha mãe, com 78 anos, recebeu um telefonema perguntando se eu tinha sido preso ou foragido. Minha irmã teve que levá-la as pressas para o hospital. Depois, questionaram como que eu comprei meu apartamento, meu carro, e eles são iguais os de todos. Se não forem inferiores. Piadas estão saindo em relação ao meu nome em tudo quanto é lugar. Eu quero que vocês me perdoem, porque a pressão é muito grande, inclusive, internamente”, disse. 

“Tenho que segurar com classe todo esse problema, e tem hora que sou humano e acaba transbordando. Me desculpem se extrapolei. Não é fácil ficar dois, três dias sem conseguir dormir, sem comer. Não é fácil, você ter que, depois de velho, ter que provar pros meus filhos... Eu estou sendo o mais debochado (nas redes sociais). Eu sou gorducho, minha cara é redondona, me perdoem, na próxima reunião vou fazer que essa atitude deselegante não volte a acontecer”, disse.

Excesso de promotor em Cuiabá

O procurador de Justiça Edmilson da Costa Pereira taxou de “dramático” o momento vivido pela instituição - e pontuou que a “lista dos 47” não atingia apenas aos citados, mas sim todos que fazem parte do MPE. 

Pereira também afirmou que é preciso haver “disciplinamento” e foi o primeiro a questionar – o que seria repercutido depois, durante toda a discussão – o papel do Gaeco. 

Tony Ribeiro/MidiaNews

Paulo Prado se irrita durante reunião do Conselho do Ministério Público


“Temos que refletir sobre o Gaeco, como é que isso é conduzido efetivamente, como podem ser eficiente? Outro ponto indispensável é passar para sociedade que são questões distintas. Se temos um membro com hipóteses levantadas, nós temos a maior questão de descobrir o que está acontecendo. Não podemos passar que estamos sendo lenientes em relação a isso. É preciso resgatar a dignidade da instituição, que ficou arranhada”. 

Outro procurador, não identificado no áudio, criticou o formato de distribuição dos membros do Ministério Público Estadual. 

"Eu estou sendo o mais debochado (nas redes sociais). Eu sou gorducho, minha cara é redondona... Me perdoem, na próxima reunião vou fazer que essa atitude deselegante não volte a acontecer"


“Há uma demanda muito séria e muito forte feita, por exemplo, pela Ana Cristina Bardusco [da Promotoria Criminal Especializada na Defesa da Administração Pública e Ordem Tributária], que tem recebido muitas informações a respeito de novos tipos de golpe e ela não consegue investigar. Por quê? Porque não têm meios, não tem estrutura. Ela precisa de pelo menos três promotores”. 

“Nós precisamos compreender que temos excesso de promotores de Justiça na Capital e que estão mal distribuídos. Nós temos promotores que sobram em determinadas áreas. Precisamos fazer redistribuição na Capital. O dinheiro público está indo direto para o bolso dessas organizações criminosas, enquanto nós trabalhamos nos processos formalizados e não conseguimos investigar. Nós não podemos acreditar que vamos processar por peculato e resolver o problema. Muito pelo contrário. Os sujeitos inventaram jeito de desviar antes de entrar”. 

Para o procurador, o MPE precisa se repensar.

“Acho que, definitivamente, precisamos enfrentar esses problemas. Isso significa dizer: tirar promotor da zona de conforto, tirar da sua promotoria arrumadinha, porque, às vezes, pra ele tá muito bom, tá ótimo, disse”.

Maquinários 

O suposto envolvimento do nome do ex-governador, atual senador Blairo Maggi (PR), no “Escândalo dos Maquinários” (desvio de R$ 44 milhões em compras de máquinas pesadas) também foi citado, durante a reunião, pelo procurador de Justiça Luiz Scaloppe. 

Desde 2012, membros do Conselho ficaram divididos entre o arquivamento do inquérito que investigava o envolvimento de Maggi ou não. Para Scaloppe, o caso teria relação com a “lista dos 47”. 

“Quero ir adiante. Nós tivemos oportunidade de promover a continuidade de uma investigação com relação a Maggi. Tivemos a altiva atitude do procurador Singer Tutiya de lutar por esse processo. Agora vejo uma máfia silenciosa. Criminoso é quem inseriu essa lista lá. Com que ideia? Vontade? Ilação? Chantagear pessoas competentes e honestas como os senhores? Esse motivo que eu queria saber como cidadão”, disse.

O procurador chega a questionar se membros do MPE, do Judiciário e outras instâncias "protegeria" criminosos. 

"Quem protege a máfia dentro do Ministério Público, no Judiciário ou nos demais órgãos? Essa é a forma emocional com que me solidarizo com os colegas. Graças a Deus meu nome não está aí. Eu teria uma síncope se estivesse"


“Quem protege a máfia dentro do Ministério Público, no Judiciário ou nos demais órgãos? Essa é a forma emocional com que me solidarizo com os colegas. Graças a Deus meu nome não está aí. Eu teria uma síncope se estivesse. A pergunta que eu deixo, especialmente o procurador-geral: será que as coisas acabaram por aí? Será que a gente vai esperar o tempo ou temos que fazer algo? Se a gente não tomar medidas, separar o joio do trigo, ter coragem, romper com algumas coisas não adianta fazer discurso diplomático”.

Ao discurso de Scaloppe, Paulo Prado reagiu. 

“Você assistiu minha coletiva Scaloppe? Ela não foi diplomática. Nenhum colega está envolvido com a máfia, nenhum. Independente de votação aqui com relação aos Maquinários ou não. Tanto é que foi designado por mim um grupo de nove promotores com relação a Blairo, Silval e demais secretários, há mais de dois meses”, disse Prado. 

Scaloppe respondeu: “Eu não estou me referindo a isso. O senhor está me cortando. Eu não estava me referindo a isso. O senhor está trazendo coisas para o meu discurso que eu não quero trazer. Eu não quero mencionar nem o doutor Regenold”.

“Eu não estou falando de Regenold”, responde Prado. 

“Sim, mas quem foi três vezes sem inquérito, três vezes, buscar elementos de um criminoso, foi do Ministério Público, está escrito, nós temos que apurar”, rebateu Scaloppe. 

Durante a discussão, a procuradora Eliana Maranhão Ayres também responde a Scaloppe. 

“Nós temos que estar unidos. Não quis o arquivamento pensando em beneficiar Blairo Maggi, muito pelo contrário, eu confiei no trabalho e li o trabalho do colega e acreditei. Ele me passou convicção de que estava certo”.

Outro lado

A reportagem entrou em contato, nesta quinta-feira (5), com a assessoria do MPE, solicitando um posicionamento de Paulo Prado sobre o conteúdo e o vazamento do áudio. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

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