ARTISTA CUIABANO LEVA SUAS CORES FORTES E TRAçOS MARCANTES A PORTUGAL
21.07.2014

Quadro que retrata o sonho de Adriano e o leva a se dedicar exclusivamente às artes plásticas. Quadro que retrata o sonho de Adriano e o leva a se dedicar exclusivamente às artes plásticas.

 

Adriano Figueiredo Ferreira estava voando no meio de nuvens que se transformavam em latas de tintas coloridas. Naquele dia acordou extasiado, se levantou tropeçando e disse, para espanto da esposa: “‘Tati vou desenhar‘. Precisava colocar para fora e tinha decidido que, a partir daquele momento, iria me dedicar apenas a pintura. Claro que ela ficou assustada pois eram três filhas para sustentar, mas ela confiou e deu certo”. Sua primeira exposição aconteceu em 2012, no dia de seu aniversário. Foi um dos dias mais felizes de sua vida e se tornou ainda mais especial pelo fato de a mostra ter sido realizada na Academia Mato-grossense de Letras, um dos lugares mais simbólicos para a cultura do estado. Dois anos depois, prestes a completar 35 anos, Adriano ganhou um novo presente. Irá realizar sua primeira exposição internacional, entre os dias 1 e 15 de agosto, em Portugal.  

 

Antes de se dedicar integralmente as artes plásticas, Adriano já havia passado por diversos empregos. Sempre procurava ocupações relacionadas com a arte, dom que foi adquirido na infância com o desenho de quadrinhos. Seu primeiro trabalho foi em uma casa de decoração pintando painéis e esculpindo isopor para festas de crianças. Fez cursos específicos em artes gráficas, montou uma empresa onde saía de porta em porta vendendo cartões de visita e chaveiros. No dia do sonho, tudo estava dando errado. Ao sair da casa de um cliente sua moto quebrou e ele teve que ir embora a pé sob o sol. Quando chegou em casa, descobriu que a energia havia sido cortada. Sem saber o que fazer, colocou uma cadeira no quintal e pediu a Deus uma luz sobre qual o melhor caminho a seguir. Foi então que teve o sonho que marcou a sua decisão de se dedicar totalmente à sua arte. “Era muito real. Eu voava entre as cores, as nuvens eram tintas . Acordei, desenhei e, a partir daí, não parei mais de pintar”. 

 

As cores fortes e os traços marcantes são sua marca registrada. A sua maior inspiração vem da cultura e da fauna mato-grossense. O cururu e siriri estão bem retratados em grande parte de suas obras e a viola de cocho é o seu símbolo favorito. A grande influência foi o avô, que era cururueiro, e as lembranças dos longos vestidos coloridos usado pela avó. “Eu penso que minha arte são os resquícios desde a infância”. A dificuldade em criar um estilo natural fez com que ele demorasse a se encontrar como artista. Queria que as pessoas olhassem a obra e a reconhecessem como sua, antes mesmo de verem a assinatura. A primeira tela que pintou, em 1999, foi um presente para a namorada. “Eu não tinha dinheiro para comprar o presente, aí peguei um tecido nada apropriado. Coloquei na parede, pintei uns peixes e dei para a minha namorada que estava comemorando aniversário. Deu tão certo que me casei com ela”. Naquela época já sonhava em viver da arte, mas pintava um quadro por ano. Ficou buscando durante 10 anos uma identidade até que acabou voltando para esta primeira pintura, que tinha os emaranhados, as cores fortes e a luminosidade que fazem parte de todos seus trabalhos. 

 

Artista plástico Adriano Ferreira apresenta a mostra Artista plástico Adriano Ferreira apresenta a mostra "Sotaque do Mato" em Portugal no período de 01 a 15 de Agosto.

A viola de cocho está presente em grande parte de seus trabalhos. Gostava de ficar ao lado do avô escutando ele tocar. Saia com ele para escolher a madeira, ficava impressionado de o ver esculpir o instrumento em uma época em que se fazia as cordas com tripa de boi ou de macaco e ficava seis horas afinando para tocar por 30 minutos. O avô morreu com 94 anos, uma longa vida como cururueiro. A última viola que fez deu para o neto, quando sua mão já tinha perdido um pouco a força e o trabalho não saiu com a perfeição costumeira. Como forma de retribuir o carinho, Adriano resolveu comprar uma viola para o avô. “Demorei para achar uma bacana, cheguei todo alegre e dei para ele. Aí ele pegou, olhou e falou que aquilo ali não prestava, que eles tinham me vendido um pedaço de pau. Queria devolver. Como prova de que serviria pelo menos de enfeite, eu pintei minha primeira viola de cocho”, lembra, aos risos. O instrumento fez tanto sucesso que Adriano foi convidado para fazer uma viola que está exposta na avenida Isaac Póvoas, trabalho que o deixa orgulhoso. Não se cansa de dizer que, como cuiabano, é uma honra ver uma obra sua no centro da cidade natal, já que considera sua arte o reflexo de Cuiabá, com seu calor e cores fortes e vibrantes. 

 

Outro tema bastante comum nas obras do artista plástico é a religiosidade. O proprietário de uma galeria do Rio de Janeiro o encontrou pela internet e pediu para Adriano desenhar um São Jorge. Depois de muita insistência, o artista resolveu aceitar o trabalho. Estudou o santo, sua origem e o motivo de ter tantos devotos e descobriu, na arte gótica, os vitrais que tinham a mesma luminosidade, cor e alegria que gostava de inserir em seu trabalho. Com esse ponto em comum, resolveu aceitar o desafio e desenhou uns 50 esboços até conseguir passar o santo para seus traços. “Eu vejo tudo em curva e tem o processo de retratar um santo, algo que já existe, para sua leitura, sua visão”. Uma das características é nunca colocar um rosto nos santos que pinta. Como católico, acredita que cada um vê a religiosidade de um jeito muito próprio. São Jorge é o mais solicitado e, por conta dele, foi convidado para expor em São Paulo e para participar de uma escola de samba, pintando ao lado da bateria. Suas pinturas do santo o fizeram se tornar mais conhecido no Brasil e no exterior. 

 

O artista plástico usa a internet para comercializar seu trabalho, meio que dá um retorno rápido e atinge um grande número de pessoas. De forma online já conheceu pessoas de várias partes do mundo, até mesmo de lugares que nem sabia que existiam, como a cidade de Teerã. Como não fala inglês, usa tradutores virtuais para auxiliá-lo em suas conversas. “A arte une as pessoas. Por mais que esteja longe, é familiar. Percebemos os mesmos interesses, desejos e angústias. Já conversei até com uma chinesa”. Adriano acredita que a chave do seu sucesso é a paixão pelo que faz. “É porque eu faço com amor, eu me dedico. É uma coisa que vem de dentro e muita gente se identifica com isso”.

 

Quando começa um novo quadro, prefere deixar a criatividade fluir, assim como a frase de Picasso que ensina que a criatividade tem que encontrar o artista trabalhando. Durante o processo de criação a parte mais rápida é o desenho, demora entre 5 a 10 minutos. Já a pintura é metódica e lenta. Leva pelo menos uma semana. “Minha pintura não tem uma técnica apurada, eu sou simples. Mas fico ali namorando, não tenho pressa de me livrar dela. Eu não abro mão que seja lenta, cada tela tem o seu tempo para nascer. Nas minhas telas eu tenho um diálogo que nem sempre é legal. Eu xingo, brigo, discuto quando estou criando. É complicado é uma expressão de sentimento, de como você vê o mundo”. 

 

O que levou Adriano a aceitar o convite para expor em Portugal foi o fato de ter sido um convite espontâneo de uma pessoa que realmente gostou do seu trabalho. Já havia recebido vários convites de fora do país, mas tinha recusado todos, já que eram pagos e contavam apenas como currículo onde o artista não teria contato com o público e nem uma resposta sobre seu trabalho. Não era isso que queria. Quando recebeu o convite, por meio da internet, para expor na Praia da Vagueira, em terras lusitanas, aceitou na hora e agora só pensa em mostrar sua raiz para o mundo. O local escolhido para a exposição é a casa de cultura Perlimpimpim ,que tem várias atrações artísticas reunidas em um só lugar. Como é alta temporada, o local abrirá todos os dias, das 9h às 2h da madrugada. “Depois da exposição quero ficar um tempo trabalhando lá, ver o que absorvo do lugar. Tenho certeza que também vou deixar alguma coisa para eles. Quero mostrar um pouco da cultura mato-grossense , já que o não falta aqui é inspiração, com as danças típicas, os mascarados de Poconé, as festas de santo. Eu tenho orgulho de representar meu estado”.

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