MULHER DE 67 ANOS IMPROVISA CRECHE EM CASA E ACOLHE CRIANçAS NO RS
30.07.2014

Dizem que em coração de mãe, sempre cabe mais um. Para Georgina Conceição Alves, de 67 anos, nada faz mais sentido do que esse dito popular. Há décadas, ela se dedica a cuidar de crianças carentes como se fossem seus filhos em Porto Alegre. Tanto que resolveu abrir as portas do próprio lar e improvisar uma creche para dezenas de crianças em seu terreno na Zona Sul da capital gaúcha.

Vó Georgina, como é conhecida, já perdeu as contas de quantos meninos e meninas ajudou a criar nos últimos 30 anos. Superou inúmeras dificuldades para sustentar os quatro filhos legítimos, mas nunca deixou de acolher crianças abandonadas ou em situação de risco. Nem a perda da casa em um incêndio, nem um aneurisma cerebral que a impossibilitou de andar e até de falar por um período a impediram de ajudar.

Quero que eles vejam o mundo de forma diferente”
Vó Georgina, 67 anos

Boa parte dessa história de dedicação ao próximo foi escrita na Vila Jardim Marabá, comunidade pobre entre os bairros Glória e Teresópolis. Ali fica a creche batizada de Cantinho Vó Georgina. Hoje, sob seu teto, vivem 10 crianças. Mas, todos os dias, passam pela creche, em média, cerca de 50 meninos e meninas, de seis meses a 12 anos de idade. Às vezes, esse número chega a 70.

"Enquanto eu tiver força para lutar, por amor a eles, eu farei até o fim. Para livrá-los do pior. Quero que eles vejam o mundo de forma diferente. Eles têm que aprender que o mundo não é só isso que eles veem por aqui", diz vó Georgina.

Um portão pintado com tinta roxa destaca a creche em meio a dezenas de outras casas humildes do bairro. Logo na entrada, há uma gangorra, um escorregador e uma casa de madeira, todos montados artesanalmente por ela. No terreno foram levantadas oito casas para acomodar os novos moradores. Há cerca de dois anos, o espaço passou por uma reforma, com a ajuda de membros do Movimento G9, um grupo solidário que conta com integrantes de nove estados brasileiros.

A maioria das crianças passa apenas um turno na creche. Algumas, no entanto, resolveram mudar de endereço e vivem ali, sob os cuidados de vó Georgina e também de seus filhos. Uma menina sofria frequentes abusos do pai alcoólatra. Outra bateu na porta e pediu socorro à Georgina, exibindo marcas de espancamento no rosto.

"Ela me pedia: ‘Vó, não me deixa voltar pra casa, por favor’. Como eu vou recusar um pedido desses, meu Deus do céu?", recorda a senhora. "Alguns já apareceram aqui de madrugada, só querendo carinho. Jamais, nunca, vou dizer não para nenhum deles", diz ela, convicta.

Praça foi construída na entrada do terreno (Foto: Rafaella Fraga/G1)
Praça foi construída na entrada do terreno
(Foto: Rafaella Fraga/G1)

Educá-las, porém, não é tarefa das mais fáceis, reconhece. "Alguns são muito revoltados. Eles dizem assim para mim: ‘Quando eu crescer, vou matar, vou fazer e acontecer’. Eu tento dizer para eles como seria bom se eles fossem bombeiros, por exemplo. E salvassem 15, 20 pessoas. Eu tento passar isso para eles", sustenta. "Não me interessa o problema de família deles. O que me interessa são as crianças. Protegê-las, defendê-las. Livrar elas do mundo das drogas", completa.

Entre os hóspedes mais antigos, estão os irmãos Mateus, 11 anos, e Juliana, de 10. Com a ajuda dos amigos, ele se locomove pelos cômodos da casa. Desde bebê, o menino perdeu os movimentos das pernas e vive em uma cadeira de rodas.

A creche sobrevive apenas de doações e do salário mínimo de Dona Georgina, incapacitada de trabalhar, obtido por meio de auxílio-doença do INSS. Algumas mães, no entanto, tentam ajudar, como se pagassem a mensalidade de uma creche normal. "Às vezes algumas dão R$ 50, R$ 60, R$ 70 por mês. Mas nem sempre dá, é claro", explica ela.

A estrutura é simples. O chão batido, em dias de chuva, se transforma em uma “poça de lodo”, como define a filha Ana Carla Conceição Alves, 40 anos, que também vive ali e ajuda a cuidar das crianças. Lá dentro, em um sofá, dormem até duas crianças. Em outro cômodo, uma bicama tornou-se “tricama”, com a colocação de uma tábua de madeira em um dos espaços. Da cozinha, saem cinco quilos de arroz e feijão para alimentar tantas bocas, no almoço e jantar, diariamente. À tarde, as brincadeiras são interrompidas para o lanche: café com leite e bolachas salgadas.

Creche na Zona Norte de Porto Alegre (RS) recebe até 70 crianças em alguns dias (Foto: Rafaella Fraga/G1)Creche na Zona Sul de Porto Alegre (RS) recebe até 70 crianças em alguns dias (Foto: Rafaella Fraga/G1)

Uma promessa
A história da vó Georgina com as crianças começou há mais de 30 anos, quando ela resolveu percorrer cerca de 400 quilômetros para tentar “mudar de vida”. Com a família, saiu de Bagé, na Região da Campanha gaúcha, com destino à Vila Jardim, Zona Norte de Porto Alegre.

Recém-chegada à capital, buscou uma alternativa para ajudar a pagar as despesas da casa. “Eu não conhecia nada dessa cidade, mas precisava de um emprego. Então, na casa que alugamos, coloquei uma placa na frente: ‘Cuida-se de crianças’. Para aumentar a nossa renda”, recorda.

Algumas crianças passam o dia na creche; outras se mudaram pra lá (Foto: Rafaella Fraga/G1)
Algumas crianças passam o dia na creche; outras
se mudaram pra lá (Foto: Rafaella Fraga/G1)

Não demorou muito para que elas aparecessem. Algumas, porém, nunca mais foram embora. “As mães deixavam eles ali e não buscavam mais. A própria dona da casa um dia saiu, deixou a casa e os filhos comigo”, conta ela. Aos quatro filhos legítimos, somaram-se outros 10 adotivos. Mal sabiam eles que a família cresceria ainda mais no futuro.

Deixaram a casa de aluguel e fixaram endereço na Zona Sul, em uma comunidade chamada Cidade de Deus. Anos depois, a casa foi atingida por um incêndio. “A gente perdeu tudo, tudo. Aqui (no terreno onde hoje é a creche) nós começamos do zero, com uma barraca. A cama era feita com pau de árvore. O colchão era velho, furado”, descreve.

Em meio a tudo isso, a saúde ficou fragilizada: sofreu um aneurisma cerebral. Vó Georgina não caminhava, mal falava. “Fiz uma promessa para Deus e para um grande orixá que tenho fé, o Pai Ogum. Sempre pedi muito a ele. Quero que meus filhos sejam como eu. Pensem para frente e nunca se escondem atrás do sofrimento e da dor. Onde há vida, há esperança. Minha infância foi bastante sofrida. Eu não gosto nem de pensar, nem de lembrar. Não quero que as crianças passem perto do que eu passei”, afirma.

“A mãe sempre disse que criança nenhuma poderia passar pelas dificuldades que ela passou na vida. A gente não sabe de tudo o que houve. Foi muita coisa. Mas resolvemos cumprir a promessa com ela. E por ela”, completa a filha Ana Carla.

Atualmente, vó Georgina precisa de frequentes cuidados de saúde: tem de se submeter a uma nova cirurgia para tratar o aneurisma sofrido no passado. “Já era para ter feito, mas eu olho para essas crianças, e penso: ‘Como vou fazer? Como minhas filhas vão se virar’? Hoje tem 10 crianças morando aqui”, justifica.

Crianças aprendem a confeccionar objetos com sucata (Foto: Rafaella Fraga/G1)
Crianças aprendem a confeccionar objetos com
sucata (Foto: Rafaella Fraga/G1)

Aulas de artesanato
Ex-catadora de lixo, Dona Georgina descobriu na sucata uma fonte de renda e de criatividade. Com a habilidade de uma artesã, ensina aos pequenos como montar uma saboneteira de garrafa pet, um balaio de jornal, um porta-chaves de garfo, entre outros objetos transformados a partir de “quinquilharias”.

A rotina das crianças na creche não segue um cronograma rigoroso, mas existem tarefas divididas entre os dias da semana. Além da hora para fazer o dever de casa da escola, há aulas de artesanato nas terças e atividades na horta, nas tardes de sexta-feira, onde as crianças aprendem a plantar e adubar o solo. “Gosto muito de mexer com papel crepom, com jornal”, conta a pequena Natália, 11 anos.

Na folha de ofício, as crianças pintam uma realidade mais colorida. Eduarda, de nove anos, escreveu um cartão, no papel tomado por declarações de carinho à vovó. “É minha segunda mãe”, exclama ela, retribuindo o carinho.

De férias, crianças passam o dia no Cantinho Vó Georgina, na Zona Sul de Porto Alegre (RS) (Foto: Rafaella Fraga/G1)De férias, crianças passam o dia no Cantinho Vó Georgina, na Zona Sul da cidade (Foto: Rafaella Fraga/G1)
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