OS PERCALçOS PARA SER CAMPEãO: DAVID MOURA E OS 13 SEGUNDOS QUE LEVARAM ANOS PARA PASSAR
30.07.2015

David Moura encaixou um youko-tomoe-nage e derrubou seu adversário em cinco segundos, um ippon perfeito que precisou de mais sete segundos para ser válidado pelo árbitro lateral. Ganhou a medalha de ouro na categoria dos peso-pesados de Judô nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá, no dia 14 de julho e assim, em 13 segundos, nasceu um novo ícone para o esporte mato-grossense. Algum desavisado poderia resumir assim, mas a história é bem mais complicada.

Uma vitória em um campeonato dessa expressão não se constrói em tão poucos segundos, mas sim com anos de dedicação e investimento. Foi aos seis anos de idade que Davi Moura começou no Judô, quase que como uma brincadeira. Assistia o pai, Fenelon Muller, judoca medalha de bronze no Pan-Americano de 1979, e os irmãos treinarem e queria participar. Aos 20 anos – hoje ele tem 27 - decidiu se tornar atleta profissional e se dedicar completamente ao esporte.

Leia mais:
Judoca cuiabano que conquistou ouro no Pan-Americano recebe moção da aplausos da ALMT;veja como foi a luta

“Muita gente viu a vitória e falou ‘poxa, tão rápido e você ganhou uma medalha de ouro’. Mas, elas não veem tudo por trás daquele golpe. Todos os nos de treino para aplicar aquele golpe, todas as dificuldades vencidas. E quando decidi ser atleta, levar isso como profissão, foi quando dei de cara com uma situação de que é quase impossível, não tem estrutura, não tem apoio. Aí a gente precisou trabalhar muito”, comenta o atleta.

 A “gente” é a família de David. O apoio de todos, inclusive o financeiro, foi essencial para a dedicação se transformar em resultados. De lá para cá, foram mais de 40 torneios internacionais e 34 países visitados, tanto para treinar quanto para competir. Em três anos, ele chegou à seleção brasileira de Judô. A Confederação Brasileira de Judô banca todas as viagens, quiropraxia e outras coisas, mas ainda assim os gastos são altos.



“Entre preparador físico, fisioterapeuta, equipamentos, alimentação e até sparings, que são na maioria do interior e eu pago o aluguel para eles ficarem próximos, são R$ 15 mil por mês. Hoje, eu tenho patrocinadores privados (Unimed, Colégio Ibero Americano e Body Cheff), mas não começou assim. E não é qualquer um que consegue bancar isso. Eu tenho uma condição diferenciada, mas sei que muitos não tem. É muito caro e falta apoio.”

Estrada para os que virão

Ciente de toda a dificuldade para se tornar um campeão, David Moura que usar a própria vitória como forma de ajudar outros atletas. A ideia é chamar a atenção do Governo para o esporte. Em todos anos de atleta, ele nunca teve apoio público e quer tentar mudar essa realidade para os futuros atletas.

“Quero pavimentar essa estrada para os que virão. Mudar a história do esporte no nosso Estado. Ajudar essa molecada que vem aí. Tem atleta sem condição de competir um estadual por falta de apoio. Eu nunca recebi ajuda do Governo. A bolsa atleta serve no máximo para você melhorar sua alimentação. Não tem uma preocupação com a base, uma formação.”


                      

Para o atleta, tudo é uma questão de prioridades. Por exemplo, ele cita o gasto de mais de R$ 800 mil para reformar o ginásio Aecim Tocantis, a fim de receber dois jogos de vôlei, enquanto esse dinheiro poderia pagar todo ciclo olímpico de mais de um atleta. E, com a falta de apoio governamental e dificuldade em conseguir patrocínios, os atletas também sofrem pressão familiar.

“A família quer que a pessoa consiga dinheiro. Enquanto isso não vem, eles criticam. ‘Ele só quer saber de jogar bola’. Mas, quando chega em um clube grande, na seleção, aí todo mundo dá parabéns e diz que sempre apoiou. Aí todo mundo gosta. O caminho do atleta é muito difícil. Por isso, quero ajudar”, completou

COMENTÁRIOS

*** **  ***


VÍDEOS

      
BUSCA:
© Copyright 2014 A Notícias - Política de Privacidade