“MACHISMO IMPERA NA POLíTICA; VENCI DISCRIMINAçãO CONTRA MULHER”
30.08.2017

Prestes a completar 87 anos, Sarita Baracat (PMDB) lembra com detalhes todos os cargos políticos que exerceu ao longo de 40 anos de vida pública. Foi primeira vereadora e prefeita de Várzea Grande - a segunda cidade de Mato Grosso - e primeira deputada estadual, após a divisão do Estado.

 

Em entrevista ao MidiaNews, em sua casa - que fica na Rua Miguel Baracat, nome de seu pai -, Sarita destacou o esforço que teve que enfrentar, como mulher, para conquistar cargos eletivos, sendo o primeiro em 1956. Disse acreditar que o machismo ainda impera na política, mas espera que a situação mude.

 

“Se nós tivéssemos mais mulheres na política, a cidade, o Estado e o País seriam bem melhores, porque elas fazem tudo com o coração, com dedicação. A mulher é dedicada e a grande maioria tem medo de errar. As que conheci, todas, não metiam a mão nos cofres públicos. Mulher não faz isso”, afirmou.

 

Quase sem enxergar, pede todos os dias para que algumas funcionárias, que vivem com ela, leiam sites e jornais da Capital, para se informar sobre o mundo político.

 

Ao falar de seu filho, o ex-deputado e ex-secretário de Estado Nico Baracat - que morreu em um acidente de carro em 2012 -, Sarita não segurou as lágrimas e disse que ele perdeu a vida no auge da carreira.

 

Criticou, ainda, a corrupção atual da política e disse que seu legado será ter feito uma vida “honesta, reta, sem pegar um centavo de recurso público”.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Sarita Baracat

Sarita mostra quadros, pendurados em sua sala, com fotos de seus pais e seus irmãos

Em outros pontos polêmicos, a ex-prefeita disse que o regime militar foi importante, pois não deixava fichas sujas entrarem na política e repartiu da melhor maneira os recursos públicos.

 

Além disso, disse não ser próxima do governador Pedro Taques (PSDB), pois testemunhou a favor do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro, considerado por ela como "inocente" das acusações de assassinato, formação de quadrilha, entre outros crimes. À época, Taques era procurador da República.

 

Veja os principais trechos da entrevista com Sarita Baracat:

 

MidiaNews – A senhora foi a primeira vereadora e prefeita de Várzea Grande, primeira deputada estadual após a divisão do Estado. Como foi esse início de carreira e as dificuldades?

 

Sarita Baracat – Eu fui primeira candidata a vereadora porque meu partido, à época, precisava de um nome para completar o mínimo de candidatos. Nosso líder político da época me ofereceu essa oportunidade, mas eu disse que não tinha experiência nenhuma, era professora. Mas não tinha um nome para completar e fui. Enfrentei esse desafio, saí a vereadora em 1956, fui a mais votada.  Fui candidata pela UDN [União Democrática Nacional]. Fiquei por quatro anos. Eu era da oposição e fazia uma boa oposição. Foi uma época de aprendizado. Eu ia ao Tribunal de Justiça, ficava no pé da escada, esperando os desembargadores subirem para saber o que eu podia falar, o que podia reivindicar como vereadora. Eu tinha uns amigos lá, mas já morreram. Eles gostavam do meu trabalho, me davam incentivo.

 

Em 1964, foram extintos os partidos, com a revolução daquele ano, patrocinada pelos militares. Eles tomaram conta do País e foi até acertado, porque eles chamavam as pessoas que queriam ser candidatas e, se não tivessem um bom passado, não deixavam concorrer. Passamos a ser Arena [Aliança Renovadora Nacional]. E, nessa altura, tinha um candidato do meu partido que desistiu da candidatura à Prefeitura de Várzea Grande, alegou que não tinha dinheiro. E me pediram para ser candidata, não tinha outro nome, tive que aceitar. Tive 34 dias de campanha, apenas, porque saí tarde. Saía de casa em casa, de porta em porta, a pé, sem recurso nenhum, nenhuma divulgação, apenas com contato pessoal com as famílias. E aqui eu conhecia todo mundo, porque nasci aqui.

 

Fui para luta sem medo de ganhar ou perder, já tinha sido vereadora, já tinha um pouco de experiência. Saía às 6 horas da manhã e chegava às 10 horas da noite, a pé. E não tinha compra de voto, como hoje em dia alguns fazem. Nós conquistávamos o voto. E não só da mulher, do homem também. Eu venci a discriminação que havia contra a mulher. Às vezes, meus adversários, que eram os poderosos da cidade, me criticavam junto aos eleitores. Falavam: ‘Você vai votar em mulher? Mulher nasceu para a cozinha’. Mas alguns eleitores me defendiam, falavam que eu merecia o apoio deles.

 

MidiaNews – Então, venceu o machismo da época?

 

Sarita Baracat – Sim. Era muito machismo. Mas entrei sem medo, sem saber se ia ganhar ou perder. Pediam para eu prometer algo, mas não prometia nada, porque não sabia se ia ganhar. Era a minha mentalidade da época. Às vezes, chegava da [Avenida] Couto Magalhães e me perguntavam por que não passei em determinada casa para pedir voto, mas era porque não dava tempo, andava a pé ou na garupa da bicicleta do meu irmão.

 

Eu ia ao Tribunal de Justiça, ficava no pé da escada e ficava esperando os desembargadores subirem para saber o que eu podia falar, o que podia reivindicar como vereadora

Eu venci, mas tive o mandato de apenas três anos. Na época, Várzea Grande não tinha nada. Encontrei a cidade suja, o prefeito tinha renunciado para ser candidato a deputado, quem substituiu estava cuidando dos próprios interesses. A Prefeitura não tinha recursos nenhum, muita dívida, oito meses de salário atrasado, sem estrutura. Mas coloquei a mão na massa, fui levantando, comecei a montar o Plano de Governo, depois da eleição. Como professora, eu comecei a lutar pela Educação.

 

Onde tinha meia dúzia de crianças, eu abria uma escola, alugava uma sala, colocava professores, treinava os professores. Terminei o mandato com 97% da população alfabetizada; à época, o melhor índice do Brasil, segundo o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. Tudo isso foi feito com recursos da Prefeitura e com ajuda dos militares, porque eles fizeram uma nova distribuição de renda para os Munícipios e isso ajudou muito. Não tínhamos quase arrecadação, era só o IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano], mas era pouca coisa, porque poucos terrenos eram legalizados. Então, eles criaram o IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados], o IR [Imposto de Renda] e tudo tínhamos uma porcentagem. Graças a isso, tínhamos um dinheiro certo. Parte desse dinheiro ia para Educação, Saúde, Saneamento. Fizemos um trabalho que, modéstia à parte, foi muito bom para a cidade e para o povo.

 

Outra preocupação era com a população, que não parava na cidade, aqui não tinha trabalho, não tinha emprego. Pensando nisso, e dada localidade, unida pela ponte a Cuiabá, começamos a atrair investimentos para cá. Era uma cidade pequena em extensão e não desenvolvia agricultura ou pecuária. Então, começamos a montar uma área industrial, oferecendo emprego para o povo. Também oferecíamos terreno, com isenção de impostos por um período.

 

Com a economia que fizemos, com essa nova distribuição de renda, adquirimos uma pá-carregadeira, uma picape para transporte, um caminhão para arrumar estradas. Na época, tomava empréstimos como pessoa jurídica e avalizava como pessoa física. Meus secretários falavam que eu ia ficar pobre, questionavam como eu iria pagar, se não recebesse o recurso. Mas eu confiava no Governo Federal. O governador Pedro Pedrossian [falecido na semana passada, em Campo Grande/MS] era meu adversário e não me dava apoio. Também no meu primeiro ano de gestão teve o centenário da cidade. Fizemos uma festa simples, mas muito bonita, com poucos recursos. Tive essa sorte de comemorar o centenário como prefeita. Tenho orgulho de ser várzea-grandense, porque o povo daqui me deu muito apoio. Sem recurso e sem nada, consegui ser vereadora, prefeita e deputada estadual.

 

MidiaNews – A senhora é filha do Miguel Baracat, um sírio que morou na Argentina e falava cinco idiomas. Qual a importância dele na sua formação?

 

Sarita Baracat – Meu pai era apolítico. Não aceitava, mas era uma liderança. Meu pai, como árabe, era muito zeloso com os filhos, principalmente com as filhas. Tinha um líder aqui chamado Gonçalo Botelho, que era da UDN, compadre de meu pai. Foi ele que convenceu meu pai a me deixar entrar na política, que eu fosse candidata a vereadora.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Sarita Baracat

Sarita posa em frente a um quadro que a mostra com 15 anos

MidiaNews – A jornalista Neila Barreto prepara um livro com suas memórias. O que quer deixar registrado?

 

Sarita Baracat – Meu Deus do céu, se eu pudesse, tudo que fiz por Várzea Grande e pelo nosso povo, seja como vereadora, prefeita, deputada. Eu fui candidata a deputada em 1978, quando o partido me convidou. Eu fui a primeira deputada eleita depois da divisão do Estado, antes tinha uma de Mato Grosso do Sul.

 

MidiaNews – O que deixa de legado na política?

 

Sarita Baracat – Vontade de servir o povo com honestidade. Na minha gestão, trazia essas indústrias, incentivava, vinham investidores de vários cantos do País, com o compromisso de aproveitar a nossa mão de obra, mesmo que desqualificada. Aqui não tinha mercado de trabalho e a obrigação deles era aproveitar nossa mão de obra.

 

As escolas que fizemos eram, também, para preparar as pessoas daqui para servir. Antes, aqui, depois do primário, não tinha escola, você tinha que ir para Cuiabá. Eu fiz esse percurso a pé para estudar, eu e meus irmãos. Atravessávamos a ponte, descia, lavava o pé, calçava a meia, e continuava a pé. E voltava a pé novamente. Quando fiz Contabilidade, tinha que dormir em Cuiabá, porque o curso era à noite. Mas foi tão bom, tão gratificante chegar ao final do ano e terminar o curso. E também preparar o pessoal da terra, formar. Esse foi o foco, inclusive, da nossa administração. Ajudei, também, na área de esporte. O Operário, por exemplo, era o grande trunfo aqui do nosso campeonato estadual.

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