26 de Maio de 2024

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ENTREVISTA DA SEMANA Quarta-feira, 16 de Novembro de 2022, 16:10 - A | A

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2022, 16h:10 - A | A

Júlio Campos sem medo do cancelamento das eleições

Decano e político que há mais tempo exerce mandato em Mato Grosso, o deputado eleito e ex-governador chega com cautela no plenário da Assembleia, porque sabe que aquele mundo é diferente do mundo real

Eduardo Gomes/Especial para o CO Popular

Político em atividade eleito há mais tempo em Mato Grosso, Júlio Campos começou sua trajetória em 1972 vencendo a eleição para prefeito de sua cidade, Várzea Grande. Decano na legislatura estadual que assume em 2023. Na bagagem um amontado de diplomas de eleito. Na prática a tarimba de quem foi governador. Nas veias o sangue político de tarimbado legislador. No comportamento a arte de não falar sobre o amanhã na Assembleia, que ele sabe bem como funciona, pois, esteve à frente de governo, e nessa situação manteve com a mesa diretora do Legislativo entendimentos que a Constituição define como harmonia entre os poderes. O pé atrás, no entanto, não impediu que Júlio admitisse a realização de eleições gerais caso haja denúncia consistente de fraude na votação.

Júlio José de Campos é danado. Sempre foi. Em 11 de dezembro de 1946, quando nasceu, seu primeiro gesto foi dar tapinha no ombro da parteira – começava ali sua carreira política – que assistia ao parto de sua mãe, dona Amália. Júlio é político de berço. Seo Fiote, seu pai e patriarca dos Campos foi vereador e por duas vezes prefeito de Várzea Grande. Irmãos e outros parentes também são políticos, com destaque para o mano, Jayme (União), que é senador, e a cunhada Lucimar (União), ex-prefeita de Várzea Grande.

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De 1965 a 69 Júlio cursou Agronomia na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, em Jaboticabal, interior paulista, e militou na política estudantil, tendo presidido a Associação dos Estudantes de Mato Grosso, em Goiás. Após a faculdade especializou-se em Cooperativismo, Economia Rural e Zootecnica.Com o diploma debaixo do braço Júlio voltou para Mato Grosso. A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) nasceu em dezembro de 1970 e, no ano seguinte, Júlio integrou o grupo de jovens professores que a fez se movimentar, sob a reitoria do médico Gabriel Novis Neves. Pouco antes da UFMT e depois paralelamente a ela, foi secretário de Viação e Obras Públicas de Várzea Grande. Admirador do senador Filinto Müller, Júlio filiou-se ao PSD em 1968, mas os partidos foram extintos dando lugar à Arena e MDB.

Apadrinhado politicamente foi nomeado engenheiro-chefe do Setor de Colonização e Operações da Companhia de Desenvolvimento de Mato Grosso (Codemat) atuando em Cáceres numa área que mais tarde formaria os municípios de Salto do Céu, Rio Branco, Lambari D’Oeste e outros. Júlio estava na Codemat quando o grupo político da Arena o queria prefeito o buscou para disputar a prefeitura de Várzea Grande. O mandato de Júlio foi de seis anos e terminou em 1977. A próxima eleição seria estadual e se realizaria em novembro de 1978. Mal saiu da prefeitura, pegou a estrada em campanha para deputado federal e conquistou uma cadeira na Câmara.

Roberto Campos, não; Embaixador Roberto Campos. Assim o chamavam. Era o brasileiro com maior trânsito nos meios econômicos e nas instituições financeiras mundo afora. Seus críticos o apelidaram Bob Fields. Júlio, danado que só ele, viu no Embaixador Roberto Campos tudo aquilo que precisava para realizar seu sonho de governar Mato Grosso. Depois da nomeação de três governadores eleitos pelo voto indireto, via Colégio Eleitoral (José Fragelli, Garcia Neto e Frederico Campos) chegava o momento de o eleitor escolher diretamente seu governante. Alguns caciques políticos brigavam para que o Embaixador Roberto Campos fosse candidato ao Senado – como ele queria – por seus estados. Paulo Maluf, de São Paulo, oferecia céus e terra para aquela candidatura, mas quem a conseguiu foi Júlio. Isso mesmo. Júlio a trouxe para seu Estado. O Embaixador Roberto Campos saiu candidato ao Senado em 1982 com Júlio ao governo. Ambos pelo PDS (sucessor da Arena). A disputa seria por voto vinculado – quem votasse no candidato de um partido teria que votar em todos, para os demais cargos, na mesma sigla. Nela, Júlio nadou de braçadas: 203.605 votos enquanto seu principal adversário, o Padre Raimundo Pombo cravou 188.878 votos; seu vice foi Wilmar Peres de Farias, de Barra do Garças. Na composição da Câmara, PDS e PMDB empataram em quatro cadeiras. Maluf quando brigou pelo Embaixador Roberto Campos sabia a razão para a briga. Senador, não pelo mandato, porque sua influência internacional ia muito além, ele canalizou para Mato Grosso os projetos Cyborg e Carga Pesada – o primeiro para trazer linhões de energia e interligá-lo ao sistema nacional; e o segundo, para pavimentar rodovias, com destaque para a BR-163, do Trevo do Lagarto, em Várzea Grande, a Nova Santa Helena, e a BR-070, de Pontal do Araguaia/Barra do Garças a Cuiabá. Júlio pavimentou 2.200 quilômetros de rodovias. Ligou Canarana e Barra do Garças a Cuiabá; levou asfalto até Nova Santa Helena, no trevo para Alta Floresta; asfaltou de Jangada a Tangará da Serra e abriu a Rodovia Transmatogrossense entre Tangará, Juína e Aripuanã. Poxoréu foi contemplada com a pavimentação da MT-130, que faz sua ligação com a BR-070 perto de Primavera do Leste, e com Rondonópolis. Júlio deu a essa estrada o nome de Osvaldo Cândido Pereira – Moreno – ex-prefeito de Poxoréu e ex-deputado estadual. Seu governo construiu milhares de casas populares, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e escolas. Seu estilo de governar, coronelesco, valorizava muito os companheiros, mas era duro com os adversários. Seu slogan, inspirado em JK, era: 4 Anos de Governo e 40 Anos de Progresso. Em 1986 Júlio deixou o governo para disputar e vencer a eleição para deputado federal. Quatro anos depois chegou ao Senado. Em 2010 novamente foi deputado federal. Depois, por curto período, foi conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Nas eleições de outubro deste ano, elegeu-se deputado estadual pelo União Brasil.

Júlio conhece tropeços políticos. Perdeu eleição para governador e prefeito de Várzea Grande, e leva em conta os ensinamentos que as derrotas lhe deram. Por isso, entra cauteloso na Assembleia, pois sabe que existem dois mundos: um dentro e outro fora do Parlamento. No fundo ele gostaria de ser o primeiro mato-grossense no pós-divisão territorial a presidir os dois poderes políticos, mas no primeiro momento não revela esse desejo, pois sabe que daqui a dois anos haverá nova eleição para a mesa diretora e até lá as costuras lhe mostrarão qual caminho seguir. Mesmo calado Júlio aceitou um pingue-pongue.

CENTRO-OESTE POPULAR – Houve realmente fraude nas urnas que elegeram o presidente Lula?

JÚLIO CAMPOS – Temos apenas denúncias sobre dezenas de urnas onde Jair Bolsonaro não recebeu voto. Elas devem ser apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral; isso pode ser fake news.

COP – ... Se comprovado?

JÚLIO – Numa situação assim seria preciso a realização de nova eleição, o que estão chamando de terceiro turno.

COP – Nesse caso teria que acontecer eleições gerais, pois as urnas receberam votos para todos os cargos?

JÚLIO – Por enquanto não há denúncia de fraude em votação para os governos e os legislativos, mas se houver, e com consistência, será preciso realizar novas eleições gerais para todos os cargos, mas com impressão de votos para evitar fraudes.

COP – Está cortando na própria pele?

JÚLIO (Sorrindo) O homem público tem que ser transparente, não se esconder atrás de artifícios, nem adotar a prática do ditado: faça o que digo e não faça o que faço. O sistema eleitoral é confiável e tem demonstrado isso, mas – repito – em caso de denúncia e uma vez a mesma comprovada, que voltemos às urnas.

COP – Esse vai ser o estilo do Júlio Campos deputado estadual?

JÚLIO – Na campanha adotei o slogan: Chame o Júlio! Na Assembleia, podem chamá-lo.

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